“Está
evidentemente aí, meu caro Glauco, a prova que é temida pela Humanidade. Que
cada um de nós possa refletir, deixando todos os estudos vãos para se entregar
à Ciência, que faz a fortuna do homem. Procuremos um mestre que nos ensine a
discernir entre o bom e o mau destino, e a escolher todo o bem que o céu nos
proporciona. Examinemos com ele que situações humanas, separadas ou reunidas,
conduzem às boas ações: se a beleza, por exemplo, unida à pobreza ou à riqueza,
ou a tal disposição da alma deve produzir a virtude ou o vício; qual a vantagem
de um nascimento brilhante ou comum, a vida privada ou pública, a força ou a
fraqueza, a instrução ou a ignorância, enfim, tudo o que o homem recebe da
Natureza e tudo quanto contém em si mesmo. Esclarecidos pela consciência,
decidamos qual destino nossa alma deve preferir. Sim, o pior dos destinos seria
o que a tornasse injusta, e o melhor aquele que incessantemente a conduzirá à
virtude: tudo o mais nada significa para nós. Iríamos esquecer que não há
escolha mais salutar após a morte do que durante a vida! Ah! Que esse dogma
sagrado se identifique para sempre com nossa alma, a fim de não se deixar
fascinar na Terra pelas riquezas, nem por outros males dessa natureza e que,
lançando-se com avidez sobre a condição do tirano ou qualquer outro semelhante,
não se exponha a cometer um grande número de males sem remédio e a sofrer
outros ainda maiores.
Os Nossos Guardiões
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quinta-feira, 8 de agosto de 2013
PLATÃO: DOUTRINA DA ESCOLHA DAS PROVAS - PARTE 1
à(s)
12:34:00
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“O relato que vos quero trazer à memória – diz
Sócrates a Glauco – é o de um homem de coração: Er, o armênio, originário da
Panfília. Ele tinha sido morto numa batalha. Dez dias mais tarde, como levassem
os cadáveres já desfigurados dos que com ele haviam tombado, o seu foi
encontrado são e intacto. Transportaram-no para sua casa a fim de fazer os
funerais e, no segundo dia, quando foi posto sobre a fogueira, reviveu e contou
o que tinha visto na outra vida.
“Tão
logo sua alma havia saído do corpo, viu-se a caminho com uma porção de outras
almas, chegando a um lugar maravilhoso, de onde se viam, na Terra, duas
aberturas vizinhas uma da outra, e duas outras no céu, correspondentes àquelas.
Entre essas duas regiões estavam assentados os juízes. Assim que pronunciavam
uma sentença, ordenavam aos justos tomarem lugar à direita, por uma das
aberturas do céu, após lhes haver fixado no peito um letreiro contendo o
julgamento pronunciado em seu favor, e ordenando aos maus que tomassem o
caminho da esquerda, localizado nos abismos, levando às costas um letreiro
semelhante, onde estavam relacionadas todas as suas ações. Quando chegou sua
vez de apresentar-se, os juízes declararam que deveria levar aos homens a
notícia do que se passava nesse outro mundo, ordenando-lhe que ouvisse e
observasse tudo quanto a ele se referisse.
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