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“O relato que vos quero trazer à memória – diz
Sócrates a Glauco – é o de um homem de coração: Er, o armênio, originário da
Panfília. Ele tinha sido morto numa batalha. Dez dias mais tarde, como levassem
os cadáveres já desfigurados dos que com ele haviam tombado, o seu foi
encontrado são e intacto. Transportaram-no para sua casa a fim de fazer os
funerais e, no segundo dia, quando foi posto sobre a fogueira, reviveu e contou
o que tinha visto na outra vida.
“Tão
logo sua alma havia saído do corpo, viu-se a caminho com uma porção de outras
almas, chegando a um lugar maravilhoso, de onde se viam, na Terra, duas
aberturas vizinhas uma da outra, e duas outras no céu, correspondentes àquelas.
Entre essas duas regiões estavam assentados os juízes. Assim que pronunciavam
uma sentença, ordenavam aos justos tomarem lugar à direita, por uma das
aberturas do céu, após lhes haver fixado no peito um letreiro contendo o
julgamento pronunciado em seu favor, e ordenando aos maus que tomassem o
caminho da esquerda, localizado nos abismos, levando às costas um letreiro
semelhante, onde estavam relacionadas todas as suas ações. Quando chegou sua
vez de apresentar-se, os juízes declararam que deveria levar aos homens a
notícia do que se passava nesse outro mundo, ordenando-lhe que ouvisse e
observasse tudo quanto a ele se referisse.
